A hortaliça: trocadilhos tolos e conduta absurda
“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo”, disse Guimarães Rosa. Dessa máxima esquisita nasceu a Hortaliça, numa tarde enfadonha de terça-feira, enquanto nossos redatores empurravam as cutículas com uma chave de fenda e balançavam os pés num banquinho realmente alto, esperando algo interessante cair do teto, com as patas bem abertas, e devolver a coerência que se perdeu há algum tempo (criança doente, ligar para). Nosso jornalzinho nasceu sem nome, sem nexo, sem propósito e sem chance, inspirado em uma matéria do Reader’s Digest: “Fadiga: o que é e como vencê-la”. Nossas edições sairão sempre que der, semanal ou anualmente (o que vier primeiro), entupidas de textos sem o menor interesse e ilustrações igualmente inócuas.
É com este editorial que se apresenta A Hortaliça, um curioso almanaque editado pela paulista Vanessa Barbara desde Janeiro de 2002, e que chega agora à edição 77. Repleto dos textos mais díspares, desde um singelo conselho de Frank Zappa a cartas dos leitores sobre o acordo hortifrutigráfico, A Hortaliça merece um lugar especial nas nossas leituras: é o exemplo de que por mais absurdo que um texto possa ser/parecer, não há tempo perdido quando o engenho se sobrepõe à inércia.
Jornalista, nascida em São Paulo em 1982, Vanessa Barbara colabora com a revista Piauí para além de editar A Hortaliça. Publicou em 2008 O Livro Amarelo do Terminal, pela editora Cosac Naify, livro-reportagem sobre a estação rodoviária do Tietê. É ainda co-autora, com Emilio Fraia, de O verão do Chibo (Objetiva, 2008).


