Felix culpa
Clara Pracana
Felix Culpa é um estudo de reflexão teórica e de análise, um ensaio sobre a culpa, nas suas diversas manifestações, conteúdo e elaboração, tanto a nível do psiquismo individual, como a nível colectivo. Pensar a culpa é perseguir o seu vocabulário. As suas manifestações na literatura, e na cultura em geral, são inumeráveis. Pensar a culpa é perseguir a sua fala. Aquiles, Heitor, Helena, Agamémnon, Orestes, Édipo, Jocasta, Antígona, Ájax, Penteu, Tirésias Um mundo de falas que falam por si e por todos nós. A poesia encenada, falada, escrita. A linguagem, o material que a psicanálise utiliza. Que melhor lugar para procurar o embrião da culpa, prenúncio de cultura, do que a matriz original da cultura ocidental? Como conceito, e de um ponto de vista epistemológico, não é fácil de definir. Faz parte da linguagem corrente, permeia a literatura desde há séculos, está omnipresente na religião, inscreve-se nos mitos, na filosofia, na arte. Como representação, a culpa aparece ligada à falta, ao pecado, ao crime, à transgressão, à punição, à expiação. Ao mal. Como afecto, é desagradável, mesmo penosa. Tão contagiosa quanto a angústia, invade o consultório do analista, como Freud bem notou, por vezes sob a forma da mais temível das aparições, a reacção terapêutica negativa: a reacção do paciente que parece agarrar-se, com todas as forças, à doença. Se excessiva e patológica, a culpa pode passar de culpa feliz (isto é, feliz para o psiquismo, para a capacidade de socialização e para a construção da civilização) a culpa infeliz (para o Eu). É a depressão, que pode chegar a ser melancolia. Malinconia, como dizia o nosso rei D. Duarte, que tão bem descreveu essa condição. O sentimento de culpa, e as suas consequências, tanto a nível individual como a nível da sociedade, dizem respeito a todos nós, e não são alheios a alguns fenómenos, como o da violência, que as nossas sociedades vivem.


